"A Pupila do Senhor Reitor Patrício"
Mário Silva (IA)
Esta obra digital de Mário Silva transporta-nos para um
universo de nostalgia e luz, evocando o classicismo da literatura portuguesa.
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A obra digital de Mário Silva é um desenho executado com uma
técnica que emula o esboço a carvão ou grafite, banhado por uma tonalidade
sépia que confere à cena um carácter intemporal e bucólico.
A composição foca-se no contraste entre a penumbra de um
interior doméstico e a luminosidade vibrante de um pôr do sol que domina o
horizonte.
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No lado esquerdo, um homem (presumivelmente o Senhor Reitor)
senta-se numa poltrona clássica, vestido de fato e chapéu, numa postura de
profunda reflexão ou leitura.
À direita, emoldurada pelas portas abertas de uma varanda,
surge a figura de uma jovem — a "pupila" — cuja silhueta se destaca
contra o disco solar imenso que parece mergulhar no mar ou numa planície
infinita.
O traço é detalhado no mobiliário e nas texturas do tapete,
enquanto a luz exterior é representada por uma claridade quase etérea que
invade a sala.
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O Crepúsculo das Palavras Mudas
O sol, esse gigante de ouro velho, começava a sua lenta
descida para o descanso, pintando o céu com as cores das promessas por cumprir.
No silêncio daquela sala, onde o cheiro a papel antigo e a
madeira encerada parecia pairar como um espírito, o Senhor Reitor Patrício
deixava o tempo passar pelos seus dedos.
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Ele não lia, embora o livro repousasse no seu colo.
Ele escutava.
Escutava o som da luz a tocar na pele da sua pupila, que,
imóvel à porta da varanda, parecia colher os últimos raios do dia para os
guardar no peito.
Ela era a sua janela para um mundo que ele já via apenas por
entre as sombras da sabedoria e do dever.
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“Há um momento, entre o dia e a noite, em que a alma se
torna de vidro: transparente, mas frágil.”
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Patrício observava-a.
Ela, de costas para a penumbra do mestre, olhava o infinito.
Naquele momento, ela não era apenas uma pupila sob a sua
guarda; era a personificação da liberdade que ele, no seu rigor de reitor,
talvez tivesse esquecido como sentir.
O chapéu dele, ainda posto, era o escudo contra a claridade
que o ofuscava, enquanto ela se entregava ao astro-rei sem medo de arder.
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Nenhuma palavra foi dita.
Não era necessário.
A estória deles estava escrita na poeira dourada que dançava
no caminho entre a poltrona e a varanda.
Quando o sol finalmente se escondesse, restaria apenas o
calor daquela presença e o eco de um suspiro que o vento da montanha traria
para dentro da sala.
O Reitor fecharia os olhos, sabendo que, enquanto ela
olhasse o horizonte, ele nunca estaria verdadeiramente no escuro.
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Texto & Obra digital: ©MárioSilva
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