“A lebre (Lepus granatensis) na toca”
Mário Silva (IA)
Esta obra digital de Mário Silva é uma representação
vibrante e texturizada que emula a pintura a óleo, utilizando uma técnica que
remete para o impasto, onde as pinceladas grossas são claramente visíveis,
dando volume à neve e à pelagem do animal.
A composição foca uma lebre-ibérica (Lepus granatensis) de
olhos atentos e pelagem em tons quentes de dourado e castanho, que contrasta
com a frieza do ambiente.
Ela emerge cautelosamente de uma toca escura num talude
coberto de neve.
O fundo apresenta uma paisagem de inverno serena, sob um céu
do nascer do sol pintado com tons suaves de rosa, laranja e amarelo difuso.
.
Do Pincel à Realidade: O Crepúsculo da Lebre nas Terras
Transmontanas
A deslumbrante obra digital de Mário Silva, "A lebre na
toca", captura um momento de serenidade e beleza selvagem.
A imagem da lebre, com o seu olhar vigilante a emergir do
refúgio invernal, evoca a resiliência de uma espécie icónica dos campos
portugueses.
No entanto, esta beleza artística contrasta dolorosamente
com a realidade atual nas terras de Trás-os-Montes, onde a lebre-ibérica (Lepus
granatensis), outrora rainha das planícies e montes, enfrenta um declínio
acentuado e preocupante.
.
O título da obra, simples e direto, remete para o habitat
essencial deste animal.
Nas vastas paisagens transmontanas, marcadas por um mosaico
de agricultura tradicional, soutos e áreas de mato, a lebre sempre encontrou o
ambiente ideal para prosperar.
Contudo, nas últimas décadas, o silêncio tem vindo a
substituir a corrida veloz deste leporídeo.
.
As razões para este desaparecimento progressivo em
Trás-os-Montes são múltiplas e complexas, formando uma "tempestade
perfeita" contra a espécie:
.
O Flagelo das Doenças: O fator mais devastador nos
últimos anos foi o aparecimento de uma nova variante da Doença Hemorrágica
Viral (RHDV2).
Inicialmente associada apenas aos coelhos-bravos, esta
estirpe sofreu uma mutação e passou a afetar as lebres com uma taxa de
mortalidade brutal.
Surtos repentinos dizimaram populações inteiras em poucas
semanas, deixando os campos vazios.
Alterações no Habitat e Práticas Agrícolas: A
paisagem transmontana tem mudado.
O abandono rural levou ao crescimento descontrolado de mato
denso, que, embora ofereça refúgio, não é o habitat preferencial da lebre (que
prefere áreas mais abertas para detetar predadores e correr).
Simultaneamente, nas áreas onde a agricultura persiste, a
intensificação, as monoculturas e o uso excessivo de herbicidas e pesticidas
eliminaram as ervas daninhas e a vegetação rasteira que constituem a base da
alimentação da lebre, além de poderem causar toxicidade direta.
A Pressão da Predação: Com o despovoamento humano do
interior e a diminuição das atividades rurais, houve um aumento significativo
de predadores oportunistas, como a raposa e, crescentemente, o javali (que pode
predar os lebrachos nas "camas").
O desequilíbrio no ecossistema torna a recuperação das
populações de lebres ainda mais difícil.
.
Em conclusão, a obra de Mário Silva serve como um lembrete
pungente do que estamos em risco de perder.
A "lebre na toca" não deve tornar-se apenas uma
memória digital ou uma relíquia do passado nas terras transmontanas.
A recuperação da espécie exige um esforço concertado na
gestão do habitat, na monitorização sanitária e numa gestão cinegética
responsável, para garantir que este símbolo da fauna ibérica continue a correr
nos campos do Nordeste de Portugal.
.
Texto & Obra digital: ©MárioSilva
.
.

Sem comentários:
Enviar um comentário