O Rapaz e o Burreco:
A Viagem pelo Vale de Tinta (estória)
Mário Silva (IA)
Havia um vale escondido onde o
mundo não parecia feito de terra e ar, mas sim de grossas pinceladas de cor
pura e vibrante.
Ali, debaixo de um céu de um azul
profundo onde nuvens brancas rodopiavam num bailado de formas circulares, vivia
o pequeno Miguel.
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Naquela manhã, o sol ergueu-se no
horizonte como uma gigante roda de fogo e ouro, incandescente e texturada,
banhando as encostas de tons quentes, amarelos e alaranjados.
A lareira da sua pequena casa
rústica, de paredes brancas e telhado de barro, já fumegava, enviando um fio de
fumo claro para o ar.
Do lado de fora, ladeada por dois
ciprestes altos e esguios que recortavam as colinas douradas, a vida de
trabalho no campo chamava por ele.
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Miguel vestiu o seu colete
castanho sobre a camisa de tom claro, ajeitou um chapéu de palha na cabeça para
se proteger do sol forte e montou no seu fiel companheiro: um burreco de pelo
acinzentado, orelhas espetadas e olhar sereno.
O animal, habituado às rotinas
madrugadoras, carregava já um cesto de vime pendurado no flanco, pronto para a
longa jornada até à aldeia vizinha.
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— Vamos a eles, Farrusco —
murmurou o rapaz, segurando de forma frouxa a corda simples que servia de
arreio.
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O caminho de terra batida rasgava
um campo de uma exuberância singular, salpicado por dezenas de flores
silvestres com intensas manchas cor-de-laranja, amarelo, branco e laivos de
roxo, que pareciam quase cintilar à medida que passavam.
Cada passo de Farrusco era
cadenciado e paciente, um ritmo vagaroso que contrastava com o turbilhão de luz
e a energia expressiva do céu em redor.
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Enquanto o burreco avançava
pachorrentamente pelo trilho floral, o rapaz deixou o olhar perder-se na
distância.
Miguel tinha uns olhos grandes,
escuros e expressivos, carregados de uma melancolia e inocência tipicamente
sonhadoras.
Não pensava no peso do cesto nem
no cansaço da viagem; pensava antes em como os ventos pareciam desenhar
espirais invisíveis lá no alto e como a luz daquele sol descomunal transformava
os montes em mares de trigo ondulante.
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A viagem era silenciosa.
Entre o rapaz e o burreco existia
uma daquelas cumplicidades rústicas que dispensam qualquer palavra.
O animal conhecia de cor as
pedras do caminho, e o rapaz confiava plenamente naquele passo miúdo.
Deixando para trás o conforto do
lar e o fumo da chaminé, seguiram em frente, duas figuras simples fundindo-se
perfeitamente com a imensidão daquela paisagem viva, pintada a espátula e a
sonhos sob a luz matinal.
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Estória & Obra digital (IA): ©Mário Silva
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