A Noite Mais Longa:
Sob a Sombra dos
Clérigos
(estória)
Mário Silva (IA)
A febre começara ainda antes de o
sol se esconder nas águas do Douro.
O cheiro a sardinha assada a
pingar no pão e o aroma doce dos manjericos já impregnava as ruelas da Baixa,
mas era agora, na escuridão quente da noitada de 23 de junho, que a verdadeira
alma do Porto se revelava.
O São João não é apenas uma
festa; é uma catarse coletiva, um momento em que a cidade suspende o tempo e se
entrega ao caos.
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O Mar de Gente e Plástico
Avançar pela rua estreita que
subia em direção aos Clérigos era como navegar contra uma maré humana.
A obra de Mário Silva capta
perfeitamente esta energia crua e quase palpável:
A Geometria da Euforia: Os
rostos da multidão, esculpidos pela luz amarelada dos candeeiros e pelo cansaço
feliz, assumiam traços angulares e expressivos.
Bocas escancaradas cantavam
desgarradas invisíveis, e os olhos, semicerrados, transbordavam uma alegria
ruidosa.
As Cores da Tradição:
Acima deste mar de cabeças, estalava a verdadeira sinfonia da noite. Piiii!
Piiii!
Centenas de martelos de São João
de plástico bailavam no ar.
Vermelhos vibrantes, azuis
elétricos e amarelos torrados rasgavam a escuridão, erguidos por braços
incansáveis que distribuíam pancadas amigáveis na cabeça de qualquer um que se
cruzasse no caminho.
Não havia cá cerimónias; na noite
mais longa do ano, um golpe de martelo é um cumprimento de respeito.
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O Vigia de Pedra
Lá ao fundo, a enquadrar o
frenesim dos mortais, erguia-se a imponente Torre dos Clérigos.
Escura e solene contra o céu
noturno, a torre parecia observar os seus filhos com a paciência de um guardião
antigo.
As varandas de ferro forjado dos
prédios circundantes, repletas de espetadores e bandeirinhas, espremiam a rua,
transformando-a num autêntico corredor de folia onde o ar se tornava rarefeito,
mas ninguém se importava.
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No meio da multidão, um rapaz de
camisola azul e branca — as cores inconfundíveis da cidade — erguia o seu
martelo com a devoção de quem levanta um troféu.
O grito que lhe saía da garganta
perdia-se na cacofonia geral, mas o sentimento era claro.
A Invicta pulsava num só ritmo,
barulhenta, vibrante e unida, disposta a bater o pé ao cansaço até que a luz da
manhã viesse, finalmente, ditar o fim do rebulício.
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Estória & Obra digital (IA): ©MárioSilva
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