"O guardador de rebanho, no estio"
Mário Silva (IA)
A obra digital da autoria de Mário Silva, é uma vibrante
homenagem à vida pastoral, executada com uma estética que remete fortemente
para o pós-impressionismo, em particular para o estilo imortalizado por Vincent
van Gogh.
.
Elementos Visuais de Destaque:
A Técnica: A imagem simula um empastamento
denso (impasto), onde as pinceladas grossas, curvas e texturizadas dão
movimento e tridimensionalidade à tela.
.
A Paisagem e o Céu: O fundo é dominado por
encostas ondulantes e ciprestes escuros, mas é o céu que rouba a atenção.
Um rodopio hipnótico de azuis e brancos envolve um sol
amarelo incandescente, captando perfeitamente a essência abrasadora do
"estio" (o pino do verão).
.
O Pastor e o Rebanho: Em primeiro plano, um
jovem pastor descansa no prado florido.
Descalço, veste trajes rústicos — camisa branca arremangada,
colete escuro, uma cinta vermelha garrida e um chapéu de abas.
O seu cajado de madeira repousa ao seu lado na relva.
Ele reclina-se, de olhos cerrados, entregue ao calor e à paz
do momento.
Ao seu redor, um rebanho de cabras brancas e malhadas
observa-o com uma curiosidade serena, perfeitamente integradas na harmonia
selvagem da cena.
.
O Peso Dourado do Sol (estória)
O relógio do campo não tem ponteiros; mede-se pela sombra
das pedras e pelo zumbido das cigarras.
Naquela tarde de agosto, o estio caía sobre as colinas com o
peso de uma manta de lã.
O ar tremeluzia sobre a terra seca, e o céu parecia um
redemoinho de luz espessa, quase líquida, que derretia os contornos do mundo.
.
Miguel, o jovem pastor, conhecia bem aquelas encostas.
Tinha os pés descalços calejados pelas pedras e a pele
curtida pelos ventos do planalto.
Naquele dia, porém, o calor era soberano.
As suas cabras, habitualmente irrequietas e teimosas nas
suas escaladas, pareciam partilhar da mesma letargia.
Pararam de debicar os rebentos secos e aglomeraram-se à sua
volta, procurando a escassa sombra que os corpos uns dos outros ofereciam.
.
Exausto, Miguel deixou o cajado de madeira escorregar-lhe
das mãos, caindo suavemente sobre as pequenas flores silvestres que teimavam em
resistir ao sol.
Deixou-se cair para trás.
A terra estava quente, pulsando como o peito de um animal
adormecido.
Puxou a aba do chapéu negro ligeiramente para trás,
desapertou o colete sobre a camisa empapada em suor e fechou os olhos.
.
Através das pálpebras cerradas, o sol não era apenas luz;
era uma presença física, um abraço de fogo.
Ele conseguia sentir o cheiro a terra cozida, a giesta seca
e o odor almiscarado do seu rebanho.
Uma cabra branca, a mais velha e mansa, aproximou-se,
encostando o focinho húmido ao ombro do rapaz, soltando um balido suave e
arrastado.
.
Miguel sorriu, sem abrir os olhos.
Não havia pressa.
Não havia para onde ir até que o sol decidisse descer por
trás dos ciprestes ao longe.
Naquele instante eterno do estio, ele não era apenas o
guardador do rebanho; era parte da encosta, irmão da relva, filho daquele céu
rodopiante e dourado que abraçava a terra em silêncio.
.
Texto & Fotografia: ©MárioSilva
.
.
